Depois de declarar que poderia “aniquilar uma civilização inteira”, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concordou com uma pausa nos combates de 14 dias. Em contrapartida, o Irã se comprometeu a interromper seus ataques e a reabrir o Estreito de Ormuz, rota por onde escoa 20% do petróleo mundial — que continuará sob controle iraniano. O acordo também prevê o fim das ofensivas contra o Líbano.
Ainda que as negociações prossigam a partir de sexta-feira e os termos do pacto firmado nesta terça-feira sejam vagos, Teerã comemorou o resultado como uma “vitória”, afirmando que manterá as “mãos no gatilho” caso o inimigo cometa “algum erro”.
Do lado americano, Trump conseguiu uma saída — ainda que temporária — de um conflito que se prolongava além do esperado, em meio a uma alta histórica nos preços dos combustíveis nos EUA e à queda crescente de sua popularidade, o que prejudica suas pretensões nas eleições legislativas de novembro. Conforme fontes da Casa Branca ouvidas pela CNN e pela imprensa israelense, o governo de Benjamin Netanyahu aderiu à trégua.
No limite do ultimato que expirava às 20h de Washington (21h em Brasília), Trump aceitou a proposta apresentada à tarde pelo premiê do Paquistão, que atua como mediador para conter um confronto que já durava 39 dias.
Anúncio de Trump na Truth Social
“Com base em conversas com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o marechal de campo Asim Munir, do Paquistão, que me pediram para interromper a força destrutiva que seria enviada esta noite ao Irã, e desde que a República Islâmica do Irã aceite a ABERTURA TOTAL, IMEDIATA e SEGURA do Estreito de Ormuz, concordo em suspender os bombardeios e ataques contra o Irã por duas semanas”, escreveu Trump em sua rede social.
Ele acrescentou: “Isso será um cessar-fogo de mão dupla! O motivo é que já cumprimos e superamos todos os objetivos militares, e estamos muito próximos de um acordo definitivo para uma PAZ duradoura com o Irã e a PAZ no Oriente Médio.”
O presidente americano ainda afirmou ter recebido uma proposta de 10 pontos do Irã, considerada uma base viável para negociação. Segundo ele, “quase todos os pontos de discórdia do passado foram acordados entre EUA e Irã”, e o período de duas semanas servirá para finalizar o acordo. “Em nome dos Estados Unidos da América, como presidente e também em nome dos países do Oriente Médio, é uma honra ter esse problema de longa data perto de uma resolução.”
Resposta iraniana e condições
Pouco depois, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã anunciou que aceitava o cessar-fogo e, em comunicado, informou que negociará com os EUA em Islamabad a partir de sexta-feira. “Ressaltamos que isso não significa o fim da guerra”, diz a nota. “Nossas mãos permanecem sobre o gatilho, e se o inimigo cometer o menor erro, responderemos com toda a força.”
Sem detalhes oficiais, o Irã declarou ter obtido uma grande vitória e forçado os EUA a aceitarem seu plano de 10 pontos. “O inimigo, em sua guerra injusta, ilegal e criminosa contra a nação iraniana, sofreu uma derrota inegável, histórica e esmagadora”, afirma o documento.
O conselho iraniano também indicou que os EUA concordaram em princípio com o levantamento de todas as sanções primárias e secundárias contra o Irã, com a aceitação do enriquecimento nuclear iraniano e com o reconhecimento do controle contínuo do país sobre o Estreito de Ormuz.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que a passagem segura pelo estreito será garantida por duas semanas, “em coordenação com as Forças Armadas iranianas e levando em conta as limitações técnicas”.
O primeiro-ministro paquistanês disse que a trégua se estende “ao Líbano e a todas as partes”.
Reações e dúvidas sobre os termos
Os EUA não comentaram os detalhes, e é possível que cada lado apresente o cessar-fogo como uma vitória. No entanto, Trump fez um anúncio mais comedido do que o habitual.
Se for verdade que os EUA aceitaram manter o Irã no controle do Estreito de Ormuz (onde poderia continuar cobrando tarifas) e permitir que siga enriquecendo urânio, dois dos principais objetivos da guerra não teriam sido alcançados por Trump. Apesar da eliminação do aiatolá Ali Khamenei e de altos comandantes iranianos, os EUA também não conseguiram a mudança para um regime laico, como haviam previsto.
O New York Times informou que o Irã aceitou a proposta após os esforços diplomáticos frenéticos do Paquistão e a intervenção de última hora da China, aliada chave de Teerã, segundo três funcionários iranianos. Eles afirmaram que a trégua foi aprovada pelo novo líder supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei.
O clima de tensão antes do acordo
O dia começara com grande apreensão. No início da manhã, Trump ameaçara eliminar uma “civilização inteira” caso o ultimato não fosse atendido, aumentando a pressão sobre o Irã para abrir totalmente o Estreito de Ormuz sob risco de ataques devastadores contra infraestruturas críticas em poucas horas. Após essa mensagem de tom apocalíptico, a Casa Branca negou que houvesse avaliação do uso de armas nucleares contra o Irã. “Só o presidente sabe qual é a situação e o que fará”, disse a secretária de imprensa.
Em uma escalada perigosa, a Guarda Revolucionária Iraniana respondeu às ameaças de Trump, afirmando que retaliaria fora da região e privaria os EUA e seus aliados de petróleo e gás “por muitos anos” se as “linhas vermelhas” fossem ultrapassadas com ataques a instalações civis. “Faremos com a infraestrutura dos EUA e seus parceiros o que os privará, a eles e a seus aliados, do petróleo e do gás da região por muitos anos”, dizia o comunicado iraniano, referindo-se ao fechamento total do Estreito de Ormuz.
Além disso, o secretário do Conselho Supremo da Juventude e Adolescentes do regime iraniano convocou a população a servir como escudos humanos contra os ataques. “Todos os jovens, esportistas, artistas, alunos e professores” deveriam formar correntes ao redor de usinas de energia.
Mediação paquistanesa e desfecho
Nesse contexto explosivo, americanos e iranianos negociavam contra o relógio, com o Paquistão como intermediário. Pouco antes do fim do ultimato, o primeiro-ministro paquistanês, com boa relação com Pequim, apresentou uma proposta a Trump e ao regime iraniano: “Os esforços diplomáticos para a solução pacífica da guerra em curso no Oriente Médio avançam de forma constante, forte e poderosa, com potencial para levar a resultados substantivos em um futuro próximo. Para permitir que a diplomacia siga seu curso, peço sinceramente ao presidente Trump que prorrogue o prazo por duas semanas”, escreveu ele no X (antigo Twitter).
“O Paquistão, com toda sinceridade, solicita aos irmãos iranianos que abram o Estreito de Ormuz por um período correspondente de duas semanas como um gesto de boa vontade”, completou. “Também instamos todas as partes em conflito a respeitar um cessar-fogo em todos os lugares por duas semanas para permitir que a diplomacia conclua a guerra, no interesse da paz e da estabilidade de longo prazo na região.”
As partes aceitaram, e agora deverão discutir os detalhes. O mundo respira aliviado, e os mercados devem reagir positivamente à trégua alcançada.
Catve


